Alexandre Aschenbach

Hipocrisia e Aprendizado


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Em nossos mais íntimos sentimentos, quantas crenças, quantas verdades, quantas ideias e quantas virtudes sabemos não possuir?

Essa certeza, que aflige o coração dos homens de bem, é também a alavanca que impulsiona o crescimento, o desbastar da brutalidade e da insensibilidade do homem para obtenção da polidez necessária para agirmos de forma sincera e dentro da ética e da moral que nos propõe a vida civilizada.

Essa mesma certeza, entretanto, é muitas vezes mascarada por nossas palavras e ações.

Somos nós capazes de nos mostrar, sinceramente, sem máscaras?

Claro que não há preocupação nesse sentido se não estivermos buscando melhorar e, se este for o seu caso, nem termine de ler.

Quando falamos ou agimos contra nossas crenças, verdades e ideias íntimas estamos sendo hipócritas.

Hipocrisia não é uma virtude, mas é um dom que todos temos. Lembrando: dons não são bons ou ruins, são somente dons.

François duc de la Rochefoucauld disse: "A Hipocrisia é a Homenagem que o Vício presta à Virtude". O que ele quis dizer? Que a Hipocrisia é falsa em si mesma, transformando para o mundo externo (ao nosso Eu interior) nossos Vícios em Virtudes.

No entendimento de Rochefoucauld, então, Hipocrisia é fingimento, é mentira.

Por pura lógica: hipocrisia é errada. É um dom do qual não deveríamos fazer uso.

Então a velhinha que entra na Igreja e cumpre suas obrigações e penitências, auxiliar o padre e o coroinha, é vista como simpática e sincera e no mesmo dia vai à casa das amigas para fofocar e falar mal dos outros é hipócrita, mente, finge.

O judeu que, na Sinagoga, cumpre suas obrigações e dá conselhos aos mais jovens e, ao sair de lá, "esquece" o que fez e pratica o "faça o que eu digo, não o que eu faço" é hipócrita, mente, finge.

O chefe de família que ensina seus filhos a não roubar e, na empresa, leva pequenos "mimos" no bolso é hipócrita, mente, finge.

O maçom que, em Loja, constrói textos maravilhosos sobre irmandade, tolerância e honestidade e, ao sair, fala mal dos seus irmãos, trama contra outrem e trai sua família é hipócrita, mente, finge.

O líder que orienta o trabalho aos seus subordinados, cobrando-os de ações eficazes e imediatas mas que, quando precisa tomar ele mesmo as ações as negligencia é hipócrita, mente, finge.

O médico que orienta o paciente a não fumar e, logo após a consulta, sai para acender seu cigarro é hipócrita, mente, finge.

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Terrível lidar com essa realidade pois, com certeza, conhecemos ou até vivemos uma ou outra situação semelhante.

Necessário lidar com essa realidade pois não há como fugir do mundo ou de nós mesmos.

Importante entender essa realidade. E cada um irá entendê-la da sua própria forma. Mas eu gostaria de oferecer uma forma mais branda, menos agressiva porém mais crítica, talvez.

No meu entendimento há duas classes de hipócritas: um é o hipócrita que se aproveita de sua hipocrisia para obter status ou benefícios mundanos, o outro é o hipócrita que, preso ainda a seus vícios, ideias, crenças e verdades deturpadas está em busca de melhorar, de se "polir".

Ao primeiro, desprezo.

Ao segundo, tolerância.

Tolerância, pois a nobre busca pela melhoria faz parte do aprendizado de cada um. E quem deseja, sinceramente, melhorar, merece tolerância, merece respeito.

Assim, a Hipocrisia e o Aprendizado podem caminhar juntos, podem se complementar, pois o primeiro tende a diminuir e o segundo é o resultado de um coração que se reconhece e, como dito anteriormente, essa certeza é também a alavanca que impulsiona o crescimento interno.

Reconhecendo a tentativa de aprendizado apesar da hipocrisia, não estaríamos sendo hipócritas se não tolerássemos e tentássemos, dentro de nossas possibilidades, auxiliar aqueles que assim agem?

Ao entender que outro age de forma deplorável para nós, porém enxergando a tentativa de melhorar por parte dele, se o ignorarmos, agredirmos, humilharmos ou desprezarmos não estaremos agindo de forma ainda mais lamentável?

Antes de julgar, antes de acreditar que alguém está sendo hipócrita, devemos separar a hipocrisia e a auto preservação. Nem sempre nossas fragilidades podem ser expostas sem que haja uma consequência funesta. O fato de que somos julgados constantemente não nos permite exibir nosso verdadeiro eu e, para preservarmos nossa integridade precisamos ocultar certas fragilidades. Isso é muito diferente de divulgar virtudes que não possuímos.

As máscaras que usamos, quando não mudam o que somos, apenas ocultam, é "preservação", "proteção". Mas quando usamos máscaras que divulgam mentiras, aí sim somos hipócritas.

Invariavelmente pessoas que utilizam a hipocrisia como forma de vida perdem as máscaras no caminho, e normalmente o emprego, às vezes os amigos, de vez em quando até a família.

Críticas devem sempre ser encabeçadas pela análise de si próprio e sempre finalizadas com a mensagem de incentivo na melhora. Assim sendo, nos melhoramos, ajudamos outros a se melhorar e encorajamos a mudança de comportamento. Se não for assim, melhor manter-se calado.

Olhemos então para dentro de nós mesmos e procuremos nossos vícios, nossas crenças, verdades e ideias que ainda estão arraigadas em nós. Vamos certamente encontrar vários problemas... e conseguiremos nos ver por várias vezes exaltando virtudes que não temos para obter um sucesso que não nos pertence.

Mais vale trabalhar para extinguir nossos vícios e, caminhando, sermos dignos das virtudes que obtivermos. E quando isso acontecer, perceberemos que não precisamos divulgar tais virtudes pois que serão inerentes ao nosso ser.